Justificação pela Fé


cruz-3Na igreja do século XVI havia basicamente três interpretações diferentes sobre a justificação do ser humano diante de Deus. Primeiro, como era comum entre as pessoas religiosas da época, existia o entendimento de que Deus olha com favor para aqueles que fizeram o seu melhor para obedecer à lei divina. Ele recompensa as boas obras e pune as obras más. Na terminologia teológica, esse homem tem participação “ativa” na justificação, porque ele se torna aceitável diante de Deus quando ele é justo nas suas ações, ou seja, se o seu comportamento está de acordo com o que a lei divina requer. Em segundo lugar, havia o ensino oficial da Igreja Romana, segundo o qual o homem é justificado ao ser curado da enfermidade do pecado e da corrupção, tornando-se apto para amar a Deus e aos homens, e, assim, cumprir a lei. Ele se torna aceitável diante de Deus, ou justo aos olhos do Senhor, pela renovação que graça produz na vida dele e pelas suas boas obras (ações justas). Assim, o homem é sujeito “passivo” e “ativo” na justificação. A cura da enfermidade do pecado não ocorre instantaneamente, pois é preciso tempo para a prática das boas obras, através das quais a vida eterna é merecida. O defensor desta visão era Agostinho. No terceiro caminho para a justificação, o homem é justificado pela fé, pela redenção que há em Cristo. O homem que tem seus pecados perdoados e a quem Deus não imputa pecado é justo aos olhos do Senhor, por causa do sangue e do sacrifício de Cristo, em quem o homem coloca a sua confiança em fé (Rm 3.23-25; 5.3-6; Hb 10.14). Esse homem é uma nova criatura, criado em Cristo Jesus para boas obras. Mas essas boas obras são somente o fruto, não o fundamento da justificação (2Co 5.15; Ef 2.8-10; Gl 2.20; 5.6). Neste tipo de justificação o homem é “passivo”, sendo esta a posição defendida por Martinho Lutero.
Agostinho (354-430) lidou com a justificação do pecador principalmente naqueles escritos contra as heresias de Pelágio. Foi essencialmente por estes escritos que Lutero foi influenciado na época de sua busca pela verdade. De acordo com Agostinho, o homem, quando caiu em pecado, voltou-se contra Deus, arrogantemente desejando ser o seu próprio senhor. Essa rebelião corrompeu tanto a sua natureza que o homem não mais busca o seu bem – sua alegria e felicidade – em Deus, mas sim em coisas terrenas. Portanto, ele não tem liberdade de escolha em questões espirituais, porque é escravo de sua carne, e a morte o atormenta. Tudo isso devido ao pecado. É que a lei de Deus demanda vontade e obediência espontânea. Mas o homem está tão corrompido que não consegue cumprir essa demanda. A lei, assim, revela a ele a sua fraqueza e pecaminosidade. Quando este homem ouve a boa nova da graça de Deus, uma fome e uma sede de salvação são criadas nele. Ele começa a orar por perdão e pela graça regeneradora, que permitirá que ele ame a Deus e ao próximo. Desta forma, o homem tem sua natureza aflita e vontade curadas, tornando-se capaz de buscar seu bem em Deus e de obedecer seus mandamentos. O Espírito tem que recriar o coração do homem para tornar a sua vontade livre. A vontade humana, assim, é divinamente ajudada na busca pela justiça, e o homem recebe o Espírito Santo, que lhe dá prazer e amor por Deus. Neste caso, a natureza humana é reparada pela graça, e o Espírito da vida escreve a lei de Deus em nossos corações. Agostinho ensina que o amor direcionado às coisas criadas do mundo é um amor pecaminoso, cobiçoso; mas quando ele é direcionado para a busca do bem em Deus, esse amor é cristão. O homem criado por Deus possuía bondade, mas na queda seus desejos passaram a buscar o bem no mundo. O trabalho principal da graça é curar essa natureza. Agostinho chama isso de renovação, vivificação, regeneração e justificação. Para ele, justificação significa que o homem é feito justo em relação à sua vontade e comportamento.
Os pensamentos de Agostinho expressados no seu tratado On the Spirit and the Letter foram fundamentais para Lutero entender a frase “a justiça de Deus”. Na sua exposição de Rm 1.17, “a justiça de Deus se revela no evangelho”, Agostinho declara: “ele não diz a justiça do homem ou a justiça de sua vontade, mas a justiça de Deus – querendo dizer não aquela pela qual Ele mesmo é justo, mas aquela com a qual ele dota o homem quando Ele justifica o ímpio”. Não é que a justificação ocorre sem a nossa vontade; mas nossa vontade se mostra fraca diante da lei. Assim, a graça cura essa fraqueza, a fim de que nossa vontade possa cumprir a lei. Somos justificados sem qualquer mérito prévio. Caso contrário, graça não é mais graça, já que a recebemos não porque praticamos boas obras, mas sim para que sejamos capazes de praticá-las. Justificação é a inscrição da lei nos corações dos homens pelo Espírito Santo. A justiça não é algo que é recebido por completo, mas um processo gradual de se tornar justo, onde a vontade humana renovada do homem coopera com a graça de Deus. Segundo Agostinho, o homem deve constantemente desejar e orar por justiça ou justificação, para que Deus possa dar a ele mais poder para deixar o mundo para trás e para cumprir a lei em amor e obediência. O homem nunca se torna totalmente justo nesta vida, mas ele está sempre avançando em direção à justiça. O crente é chamado justo porque a justiça começou a operar nele. O pecado permanece com a sua atividade no homem, mas não é mais imputado para culpa, porque Deus perdoa esses pecados.
A concepção de Lutero sobre a justificação pode ser resumida da seguinte forma: a) o homem é justificado totalmente por Cristo, que se entregou na cruz por todos nós. Os benefícios e frutos do seu sacrifício são perdão e justificação; b) o homem é justificado pela imputação dessa justiça, preparada e conquistada por Cristo para benefício do pecador. Um cristão não é aquele que não tem pecado, mas aquele a quem Deus não imputa pecado por causa da fé em Cristo. Essa absolvição da culpa faz ele ser aceitável diante de Deus e inocente aos seus olhos; c) o homem é justificado quando ele se apropria e recebe pela fé esse perdão da justiça imputada. A fé não justifica como uma obra, mas porque ela captura a misericórdia revelada em Cristo; d) justificação não é um processo gradual, mas um ato instantâneo de Deus pelo qual Ele declara o pecador livre de sua culpa; e) Deus não somente perdoa pecados e considera o pecador justo, mas Ele também renova o homem e faz com que ele seja justo em seu coração e vida. Essa renovação, no entanto, ele distingue como a segunda parte da obra de salvação divina. Enquanto a graça, que não é dividida em pedaços, justifica completamente diante de Deus, os dons e o Espírito crescem em nós a cada dia, de modo que ainda permanecem em nós a cobiça do mal e o pecado. Lutero nega definitivamente que quaisquer mudanças possíveis em nós pertençam à justificação. A obediência não está envolvida na justificação, porque Paulo recebeu perdão de pecados antes mesmo de sua obediência. O propósito final da obra de salvação divina é a completa renovação do homem, mas isso só ocorrerá na eternidade; f) a correta distinção entre Lei e Evangelho está ligada à doutrina da justificação. O objetivo da lei espiritual é trazer convicção de pecado ao coração do homem, preparando-o para receber o evangelho da graça. O cumprimento da lei através do amor a Deus e ao próximo não pertence à justificação, mas à santificação. O Espírito cria no homem a atitude correta em relação a Deus e ao próximo. Justificação e renovação devem ser claramente distinguidas, mas não separadas uma da outra. Deus nunca justifica o homem sem renová-lo; e Ele nunca renova o ser humano sem justificá-lo.
Agostinho acredita que o homem é justificado por cumprir a lei de Deus através do poder que ele recebe. Já Lutero ensina que o homem deve primeiro ser justificado pela fé em Cristo. Somente então é possível para ele empenhar-se para cumprir a lei em amor e obediência. Na visão agostiniana, a justificação é uma realização futura. O cristão deve se esforçar por isso continuamente, sempre permanecendo em humildade, orando por misericórdia e se empenhando para se ajustar à lei. Na visão de Lutero, a justificação é uma realidade presente, pois é recebida na sua plenitude pela fé. Somente na santificação o esforço contínuo é necessário. O pesar pela presença do pecado e da falta de justiça é uma característica da fé agostiniana, enquanto que a alegria pela salvação e a perfeita justiça em Cristo têm lugar central na fé de Lutero. Na fé agostiniana, a presença do pecado tende a destruir a certeza da salvação, já que a pecaminosidade é equivalente à falta de justiça; na fé luterana o pecado não causa (ou não deveria causar) dúvida devido à completa, total e suficiente justiça de Cristo. Ambos concordam sobre a necessidade de uma luta constante contra o pecado e da mortificação diária da carne.
A Igreja Romana desenvolveu e modificou a doutrina de Agostinho sobre a justificação em diversos aspectos, mas basicamente ela ainda é agostiniana. No Concílio de Trento (1545-63), a Igreja Romana definiu sua doutrina contra os ensinos da Reforma. Teólogos protestantes seguidamente têm se confundido com essas similaridades, pois não é simples a diferença de ênfase que separa esses ensinamentos.

Autor: Christian Lo Iacono   26/07/2008 – www.cristoearesposta.org.br

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